Após mais um período negro da minha ausência do blog — e eu sei que vocês sentiram saudades —, trago, mais uma vez, um livro + filme de suspense;
1988, Thomas Harris apresentava ao público o livro que viria a ser um clássico da literatura contemporânea. Mais que apenas um livro, seu singelo "O Silêncio dos Inocentes" remeteria o olhar do público ao gênero policial, ao apresentar, em um só livro:
— Suspense
— Terror Psicológico
— Uma personagem badass feminina — o que não era muito comum para o gênero (esquece Agatha Christie um pouquinho).

A trama inicia-se acompanhando Clarice Starling, uma jovem agente do FBI em formação, que é inserida na investigação de uma série de crimes que parecem conexos: O assassinato de cinco mulheres pelo país. Os corpos são encontrados longe do local onde — supostamente — as vítimas teriam sido raptadas, e com uma porção de pele faltando — escalpeladas, para soar inteligente.
Mas a única peça que poderá levar os investigadores ao assassino parece tão insana quanto o próprio. O psiquiatra canibal Hannibal Lecter, quem a jovem Starling deve entrevistar a fim de extrair informações.
A sinopse crua parece de um livro simples. Mas não fazemos ideia do que nos espera ao rolar as páginas.
Simples, mas encantadora, a escrita de Harris nos apresenta uma voz forte e poderosa da literatura. A cada linha, a trama se entrelaça, se estreita, prende. (SCRR EU RI TANTO ESCREVENDO ESSA PALAVRA E LEMBRANDO DO LECTER NA CELA, PRI ME AJUDA A FICAR SÉRIO, COMO FAZ?)
1991, Jonathan Demme lança o filme que voltou os olhos de Hollywood para o lado negro da força suspense. Para o terror psicológico, ao encerrar uma década de ouro para o gênero, e inciar uma década ainda mais promissora, ao puxar os sustos para o psicológico, para o humano. Não mais zumbis e demônios. Mas carne (OLHA EU RINDO DE NOVO) e osso.
O filme destaque do oscar 92, com prêmios de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Adaptação, Melhor Ator Principal, Melhor Atriz Principal, e tornou-se o terceiro filme da história da premiação a levar o "Quinteto", como é chamado o grupo composto pelos cinco principais prêmios.
E enquanto o livro conta a história de uma forma mais ampla e impessoal, o filme apresenta como foco Clarice Starling — elemento destacado pela incrível performance de Jodie Foster. Sim. O filme é sobre a jovem Starling, afinal de contas. Não se trata do canibalismo de Lecter, dos crimes de Buffalo Bill, da investigação. O filme nos leva a uma nova perspectiva sobre a obra de Harris. E nessa nova perspectiva, Clarice figura com clareza. A personagem quebra os clichês de seu sexo em filmes do gênero, ao ser forte, presente. Ao dominar com toda sua força qualquer contexto. CLARICE IS OUR QUEEN.
O filme, a partir deste momento, complementa o livro, de forma que um nunca será melhor que o outro, pois o conjunto supera qualquer uma das partes.
Os diálogos de Clarice e Hannibal são inteligentíssimos, de tirar o fôlego, de causar inveja.
Quanto ao personagem de Lecter, interpretado majestosamente por Anthony Hopkins, ele está lá para ser um objeto. Para ser "um brinquedinho de Crawford", mas torna-se infinitamente mais que apenas isto. Ele domina o jogo, expõe suas regras, e joga à sua maneira. Enquanto todos correm contra o tempo para parar Bill, ele não acelera em metro por segundo seu passo. Lecter rocks.
É um vilão cativante, que nos leva a refletir sobre a natureza distorcida de nossa humanidade, sobre o correto, o ético, sobre o incorreto.
O final é surpreendente, apenas confirmando que o Silêncio dos inocentes está na lista de filmes para ver antes de morrer.
E como lição, levamos: Cuidado com psiquiatras. Somente coma fígado humano com feijões fava e vinho Chianti.